sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Existe ideologia de gênero?




Alexandre Lobo


Para além do senso comum, qualquer indivíduo que entenda do conceito de ideologia saberá que não, não existe ideologia de gênero. Mesmo o termo sendo polissêmico, não há espaço para que exista. Um possível sentido para o termo é de um conjunto de ideias, preposições e proposições políticas e sociais, aproximando-se do que se referia Cazuza na letra de sua música “ideologia, eu quero uma pra viver. Mas, mesmo em um sentido oposto, mais científico filosófico, de vertente marxista, seria uma aberração, pois significaria, propositalmente, uma visão distorcida a respeito de gênero. A ideologia é sempre uma percepção parcial da realidade, é ver a parte como o todo, é ver o momento como se fosse o movimento.


Então vamos lá. No primeiro sentido, falar em ideologia de gênero seria pensar em uma utopia, em um paraíso dominado por gays, lésbicas e travestis. A homossexualidade seria um imperativo categórico. Todas as ruas e prédios seriam pintados com as cores do arco íris


No outro sentido, que não faz sentido, pois a ideologia não é intencional, ninguém quer conscientemente ter uma visão distorcida da realidade, seria pregar, por exemplo, que a heterossexualidade não é natural, que é sócio e historicamente construída, enquanto que a homossexualidade o seria. Então, todas as civilizações, a exemplo dos espartanos, teriam um comportamento homosexual. Ora, é justamente o contrário, a ideologia em vigor entende a homossexualidade como uma aberração, o tanto que se fala em cura gay, Isso despreza o comportamento sexual a o longo da História, e ignora que comportamento sexual e identidade são coisas distintas. Os guerreiros espartanos se consideravam homens, machos nos termos de hoje, entretanto, dentro da cultura grega, o ideal era a relação sexual com outros homens.


Questão de gênero confundido, grosseiramente, com ideologia de gênero, mas é completamente diferente, trata-se de questões de identidade de gênero, mas é bem mais que isso, trata-se também de feminicídio, de violência contra a mulher.Qualquer pesquisa básica no Google mostra que tais crimes vem aumentando. É necessário discuti-los sim, segar esse problema é que é ideológico.


Se é possível a existência de uma ideologia de gênero, não é a que dizem que é, mas sim uma ideologia machista e homofóbica, baseada numa visão falocrática de mundo.


sábado, 16 de julho de 2016

Escolas ocupadas e a luta pela educação no Rio Grande do Sul

Alexandre Lobo
simpatizante do 
Coletivo Espaço Marxista

O professorado gaúcho tem sofrido sérias derrotas, embora por vezes as transformem - maquiem - em vitórias, como por exemplo não ter desconto dos dias parados nos casos de paralisação, como foi o caso da última greve de quase dois meses terminada há pouco... As mobilizações, mesmo com um congelamento salarial de mais de dois anos e com previsão de mais dois, contenta-se com a manutenção de migalhas.

Esse mesmo professorado que votou contra o petismo de Tarso Genro em nome de um piso, mobiliza-se com a mesma facilidade que desmobiliza-se, adotou a tecnologia do start stop. As greves desmancham-se no ar.

São os alunos, ocupando escolas, indignando-se pela qualidade da estrutura física da educação que estão, de fato, dando verdadeiras aulas de cidadania. Entretanto, a mídia, que no início deu cobertura, percebeu o perigo dessa juventude periférica - no sentido de estudar em escolas públicas. Alunos ocuparam escolas com goteiras, falta de policiamento, instalações elétrica e hidráulicas defasadas, e promoveram aulas livres, a céu aberto. Não se pode dizer que esses alunos mobilizados não querem estudar, ao contrário, querem estudar em condições reais de aprendizagem. Esses alunos deram verdadeiras aulas de cidadania, de reivindicação, mas o exemplo dado pelos mestres é estarrecedor…

Voltam às aulas nas mesmas condições precárias. Voltam às aulas perdendo. Quase todos perdem. O sindicato perde, quem vai querer entrar numa greve em que o resultado é nada? Os alunos perdem a esperança na mobilização, na própria cidadania. Os professores perdem o potencial reivindicativo. E a sociedade perde, pois lutar e se politizar não vale a pena. Quem ganha? Aqueles poucos, ínfimos, setores da sociedade que não necessitam de escola pública, mas lucram mais aqueles que estarão prontos para oferecer uma “terceira via”, uma escola particular prestadora de serviço público. Mas, certamente, não serão os professores que nela trabalharão os principais beneficiários de uma greve inócua.

de
http://espacomarxista.blogspot.com.br/2016/07/escolas-ocupadas-e-luta-pela-educacao.html

domingo, 26 de junho de 2016

Sobre os conceitos de Revolução e Reforma



Prof. Alexandre Lobo


Toda a revolução é uma transformação radical que resulta em algo novo, seja no plano econômico, político ou social. Já uma reforma é uma mudança que preserva o essencial, mas que procura transformações que melhorem, que levem a algo melhor ou mais suportável. Já uma revolta é uma manifestação de descontentamento a partir de um ponto específico de uma política, mas não visa nenhuma mudança ou reforma estrutural. Tanto uma reforma quanto uma revolução ou mesmo uma revolta podem levar a uma guerra civil
O termo revolução, inicialmente, foi usado na astronomia para designar o giro completo de um astro em torno de sua órbita ainda na época do Renascimento. Em História é usado para designar transformações radicais nos aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais ou tecnológicos de um sistema social. A mudança em um aspecto pode ou não significar a mudança em outros.
Movimentos que não propunham uma mudança estrutural eram conhecidos como reforma. A reforma, ao contrário da revolução, não visa a criação de algo novo, mas uma profunda transformação no que já existe. Um exemplo de reforma foram as reformas religiosas. Calvino e Lutero contestaram a religião católica, transformaram o monopólio da interpretação da Bíblia, escrita em latim, aboliram a necessidade de celibato do sacerdote e a indulgencia  (venda de lugar no céu). Entretanto, as reformas manteram a base religiosa do catolicismo que é o cristianismo.
A primeira revolução político-social foi a Inglesa, instaurou a sociedade capitalista ao consolidar o que podemos chamar de Estado de Direito e colocar no poder a burguesia. Entende-se por Estado de direito todo o aparato político institucional submetido a uma Constituição. O processo inciou-se com o reconhecimento, pelo rei, em 1215, da Carta Magna, que limitava seus poderes perante a nobreza. Mas foi com a vitória dos cabeças redondas, burgueses e puritanos, na Guerra Civil de 1642 a 1649, partidários do Parlamento contra os nobre partidários do rei que a nova ordem se consolida. A execução de Carlos I em 1649 e a ascensão de Oliver Crowmell ao poder enquanto Lord Protector (título que irá se converter em Primeiro Ministro) significam o fim da monarquia absolutista.
O processo revolucionário francês, inciado em 1789, também pôs fim a um Estado Absolutista e consolidando o poder de uma burguesia. A execução de Luís XVII em 1792 e a consequente ascensão dos jacobinos ao poder abolindo a distinção entre cidadãos passivos (não participantes da política) e ativos (pagantes de impostos e participantes da política) significa a consolidação da ideia de direitos universais e da ampliação do conceito de cidadania.
As revoluções podem ser de caráter passivo ou ativo e podem ocorrer de cima para baixo ou de baixo para cima. São revoluções passivas aquelas que não se realizam por meio de violência e ocorrem, geralmente, a longo prazo. É o exemplo da própria revolução industrial que se iniciou em meados do século XIX com a invenção da máquia a vapor sem que houvesse intenções de transformar radicalmente a sociedade. A revolução industrial foi uma revolução, pois mudou a sociedade fazer surgir e se consolidar o trabalho assalariado e a burguesia industrial, além de mudar a forma de produção e do relacionamento do homem com o tempo, passando de uma marcação temporal a partir dos fenômenos da natureza para o uso de relógios. As revoluções ativas costumam ser violentas, como a inglesa e a francesa, mas nem sempre, a revolução dos cravos, ocorrida em Portugal em 24 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura de Salazar, aconteceu pela desobediência de militares de patente média sem que esses necessitassem disparar tiros.
As revoluções passivas não são violentas e geralmente são feitas de cima para baixo. Uma revolução de cima para baixo é protagonizada pelas elites, sejam elas econômicas ou políticas. É o caso da revolução burguesa alemã do século XIX. Os junkers, nobresa rural alemã, se juntaram aos burgueses para implantar a nova ordem social industrial. Um outro exemplo de revolução passiva foi a Revolução Gloriosa de 1688-1689 em que, sem derramamento de sangue, o rei inglês, Jaime II, católico, foi deposto e substituído por Guillherme III, protestante holandês que passou aceitou a Bill of Rights (declaração de direitos) aceitando a supremacia do Parlamento e enterrando de vez o absolutismo inglês.
O conceito de elite foi desenvolvido pelos italianos Vilfredo Pareto (1848-1923) e Gaetano Mosca (1858-1941) e significa um grupo restrito de uma minoria privilegiada que pode ser relativa a questões políticas, econômicas ou mesmo intelectuais. Às elites, melhores, se contrapõe as massas, a maioria despriviliegiada. Nem sempre a elite econômica é também elite política. Foi o caso da burguesia pré revolucionária que, embora tivesse o poder econômico, era desprovida de poder político. Já parte da nobreza francesa, ao contrário, detinha o poder político mas havia empobrecido.
As revoltas não tem pretensões de transformações estruturais, geralmente se posicionam contrariamente a determinadas políticas públicas ou mesmo a questões pontuais em geral. A revolta dos farrapos, erroneamente denominada revolução farroupilha, intencionava uma mudança na lei do charque que favorecesse aos gaúchos em relação ao mercado do Império. É propriamente com o desenrolar da guerra que ela ganha um caráter separatista.
Por vezes, um golpe de estado pode tentar passar-se por uma revolução, mas o Coup D’Etat, golpe de Estado, em francês, é uma alternância interna ao Estado das forças governamentais por meio da derrubada de um governo e implantação de outro. Em 1964, no Brasil, por exemplo, houve um golpe de Estado quando os militares, parte do aparato Estatal, derrubaram um presidente eleito.
A questão da Revolução passa pela questão da legalidade e da legitimidade. A legalidade passa pela questão da lei, já a legitimidade passa pela aceitação relativa da maioria em relação ao estabelecimento de um determinado governo. Toda a revolução política é uma manifestação ilegal, pois se pretende estabelecer uma ordem jurídica nova. Um aparato legal pode tornar-se ilegítimo, abrindo espaço para processos revolucionários.

BIBLIOGRAFIA
BARNABÉ, Israel. Elite, classe social e poder loca. In: http://seer.fclar.unesp.br/estudos/article/viewFile/384/278
BOBBIO, Norberto e outros. Revolução. In: Dicionário de Politica. Brasília: UNB, 2010
FLORENZANO, Modesto. As revoluções burguesas. São Paulo: Brasiliense, 1983.
LÖWY, Michael. A revolução burguesa e a revolução permanente em Marx e Engels. In:https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0ahUKEwiz9JiB1JvMAhXFjpAKHZe_DbUQFggfMAA&url=http%3A%2F%2Fwww.revistas.usp.br%2Fdiscurso%2Farticle%2Fdownload%2F37849%2F40576&usg=AFQjCNEXXl--FsJDZzzmckCLGphGoj_mUw&cad=rja


segunda-feira, 21 de março de 2016

Pequena nota sobre educação e tecnologia
Alexandre Lobo – Prof. Dr em Literatura Brasileira pela UFRGS


No atual discurso sobre a educação, o advento da informática é apresentado como um milagroso instrumento na relação ensino aprendizagem capaz de fazer com que todos aprendam qualquer tipo de conteúdo. Muitas vezes é o professor, com sua carência tecnológica, que é apresentado como um obstáculo as novas, revolucionárias e eficazes pedagogias. Porém, é pertinente levantar alguns questionamentos, como por exemplo a distribuição desigual tanto de equipamentos quanto de saber técnico a respeito da tecnologia.
Boa parte desse discurso redentor pauta-se na diferença entre a geração do aluno e a do professor em relação ao habito do uso de computadores pessoais. Entretanto, as gerações mais novas de professores já nasceram com a popularização do uso do computador pessoal para tarefes como escrever textos, muitos tiveram uma adolescência familiarizada com jogos eletrônicos.
A tecnologia está em movimento, o significado prático de um computador pessoal nos anos 90 não é mais o mesmo. Infelizmente, dentro de uma sociedade de consumo, onde o imperativo é consumir, consumimos, portanto existimos, um aparelho nem bem foi explorado por seus recurso já é substituído por outro. Nos anos 90 um computador pessoal tinha a função de basicamente de servir como instrumento de trabalho e de entretenimento por meio dos jogos eletrônicos, concorrendo com os chamados consoles. No meio acadêmico das humanas, era mais uma máquina de escrever. Nos anos 2002, com o desenvolvimento da internet e das redes sociais, ele popularizou-se como instrumento “relacionamento virtual”. Contudo, mais recentemente, o aparelho entendido como computador passou a concorrer com os smartphones e os tablets. Esses aparelhos hoje, de dimensões reduzidas, tem mais capacidades, tanto de processamento quanto de armazenamento, que os computadores pessoais do início dos anos 2000. E estão muito popularizados. Desktops ou mesmo noteboocs têm maior serventia para textos longos.
De certa forma, a informática transformou-se, não apenas na forma, mas também na função. Entretanto, ao desenvolver-se também em funções, passou a exigir menos qualificação e menos empregados, principalmente nos supermercados. Sem falar nos caixas eletrônicos que tirou o emprego de bancários, nos super, a figura do demarcador de preços cedeu lugar para os códigos de barra. No caixa, a funcionária não necessita mais conhecer o que seria básico em sua função, a matemática.
Há um crescente processo de alienação quanto a própria produção da informática, tanto em termos de máquina quanto de programa, pois hoje o usuário só necessita “ler” a tela, que, por ícones, é autoexplicativa. O usuário cada vez mais sabe menos o que está fazendo, e também, cada vez mais fica dependendo de determinados programas visuais - a disposição dos ícones e barra de tarefas. Outra forma de alienação ocorre com perda da noção da concretude de seu trabalho, não sabe que os dados produzidos na máquina ficam armazenados em um disco rígido, que hoje pode estar até mesmo em outro país, comprometendo a privacidade
No discurso midiático sobre educaçãotambém o problema da múltipla tarefa. Trata-se do que alguns autores chamam de geração “y”, a geração digital. É uma geração que se contrapõe a sua antecessora por ser “multifuncional”, por ser capaz de fazer várias coisas ao mesmo tempo, como ver televisão, conectar-se nas redes sociais e fazer o dever escolar. Esse é um argumento usado para a mudança na forma de educação. De certa forma é uma visão equivocada. Primeiro por que a popularização da informática não ocorre da mesma forma em todas as classes sociais e se relaciona também com a questão da propagação do saber técnico, além da questão da possibilidade de adquisição de equipamentos. Além disto, a “multifuncionalidade” não é garantia de aprendizagem, pode-se fazer várias tarefas sem realmente estar atento a elas. Escutamos hoje, mais do que a uns vinte anos, termos como deficit de atenção e analfabetismo funcional.
O problema é entender o meio com o fim, como se a tecnologia, per si, resolvesse o problema do aprendizado de determinado conteúdo. Essa questão seria evidenciada pela distância “tecnológica” professor/aluno. Porém, já em 2015, tempos professores formados nessa divulgação informática. E a relação ensino/aprendizagem pode ter mudado a forma, mas não mudou o problema, não há nenhuma comprovação de crescimento no rendimento escolar como resultado do uso de tablets ou celulares. O problema não é o uso em si, mas de como é usado - e isso pode ser aplicado até mesmo ao antigo giz.
Nos Estados Unidos, com a popularização da informática, o professor, cada vez mais, torne-se controlado ao receber um kit já formatado com os conteúdos já escolhidos. A falta de conhecimento técnico do professor o separa desse produto - um ebook, um sitio, uma apresentação, ou um vídeo, por exemplo.
Uma aula industrializada deixa de ser produto de um professor proletarizado. Não se trata de sermos novos ludistas, mas sim de que tenhamos consciência de que as facilidades da informática não são o paraíso sem preço que a mídia nos tenta vender.